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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

LITURGIA, MÚSICA E COSMOS - Bento XVI




"Como conclusão de minhas reflexões, citarei uma bela palavra do Mahatma Gandhi que eu encontrei recentemente num calendário. Gandhi evoca os três meios nos quais se desenvolveu a vida no cosmos, e nota que cada um deles tem um modo de ser que lhes é próprio. No mar vivem os peixes, silenciosos. Os animais que vivem sobre a terra firme gritam, enquanto os pássaros que povoam o céu cantam. O silêncio é próprio ao mar, o próprio da terra firme é o grito, e o próprio do céu é o canto. Mas o homem participa dos três: ele porta em si a profundidade do mar, o fardo da terra e as alturas do céu. É por isso que ele é também silêncio, grito e canto. Hoje em dia – eu acrescento – vemos que só resta o grito a um homem sem transcendência, porque ele não quer ser mais do que terra, e porque ele tenta também transformar em terra as profundezas do mar e as alturas do céu. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos lhe restitui sua totalidade. Ela nos re-ensina o silêncio e o canto, abrindo-nos às profundezas do mar e ensinando-nos a voar, a participar do ser dos anjos. Ao elevar os corações, ela faz soar novamente uma melodia sepultada. Sim, podemos mesmo dizer, agora, o inverso: pode-se reconhecer a verdadeira liturgia na medida em que ela nos libera do agir ordinário e nos restitui a profundidade e a altura, o silêncio e o canto. Reconhece-se a liturgia autêntica na medida em que ela é cósmica, e não função de um grupo. Ela canta com os anjos, ela se cala com as profundezas do todo, em expectativa. E é assim que ela libera a terra, que ela a salva".





- "O Espírito da Música"

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O Viridissima Virga - Santa Hildegarda



1. Oh verdíssimo rebento

Ave, brisa suave da oração dos santos


2. Que em seu tempo floresce todos os ramos

Ave, Ave, fostes de quem o calor do sol exalou
o perfume do bálsamo


3. Para em vós brotar a bela flor que a fragrância despertou

todas as especiarias secas em seu estupor


4. E todos eles apareceram em verdor


5. Donde os céus derramaram o orvalho sobre a relva

e toda a terra foi feita feliz

Porque seu ventre frutificou e teceu o ninho em que as aves do céu se aninham


6. E houve magnânima alegria para os homens que comeram deste fruto

Por isso, ó doce Virgem, nenhuma alegria te falta.


7. Estas coisas Eva rejeitou


8. Mas agora, nova Eva, louvas o Altíssimo


1. O viridissima virga,

ave, que in ventoso flabro sciscitationis

sanctorum prodisti.


2. Cum venit tempus quod tu floruisti in ramis tuis,

ave, ave fuit tibi, quia calor solis in te sudavit

sicut odor balsami.


3. Nam in te floruit

pulcher flos qui odorem dedit

omnibus aromatibus que arida erant.


4. Et illa apparuerunt omnia in viriditate plena.


5. Unde celi dederunt rorem super gramen

et omnis terra leta facta est,

quoniam viscera ipsius frumentum

protulerunt et quoniam volucres celi nidos

in ipsa habuerunt.


6. Deinde facta est esca hominibus

et gaudium magnum epulantium.

Unde, o suavis Virgo, in te non deficit ullum gaudium.


7. Hec omnia Eva contempsit.


8. Nunc autem laus sit Altissimo.







terça-feira, 17 de maio de 2016

Spiritus Sanctus - Santa Hildegarda

Spiritus Sanctus vivificans vita,
movens omnia,
et radix est in omni creatura,
ac omnia de immunditia abluit,
tergens crimina,
ac ungit vulnera,
et sic est fulgens ac laudabilis vita,
suscitans et resuscitans omnia.



Espírito Santo
Dando vida à vida
Movendo o todo
És a raiz de toda criatura
lavando toda impureza
limpando a culpa
e ungindo as feridas
Assim és fulgor
e digno de louvor
Suscitando e Ressuscitando
tudo que é

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Dies iræ




1
Dies iræ! dies illa
Solvet sæclum in favilla
Teste David cum Sibylla!

2
Quantus tremor est futurus,
quando judex est venturus,
cuncta stricte discussurus!

3
Tuba mirum spargens sonum
per sepulchra regionum,
coget omnes ante thronum.

4
Mors stupebit et natura,
cum resurget creatura,
judicanti responsura.

5
Liber scriptus proferetur,
in quo totum continetur,
unde mundus judicetur.

6
Judex ergo cum sedebit,
quidquid latet apparebit:
nil inultum remanebit.

7
Quid sum miser tunc dicturus?
Quem patronum rogaturus,
cum vix justus sit securus?

8
Rex tremendæ majestatis,
qui salvandos salvas gratis,
salva me, fons pietatis.

9
Recordare, Jesu pie,
quod sum causa tuæ viæ:
ne me perdas illa die.

10
Quærens me, sedisti lassus:
redemisti Crucem passus:
tantus labor non sit cassus.

11
Juste judex ultionis,
donum fac remissionis
ante diem rationis.

12
Ingemisco, tamquam reus:
culpa rubet vultus meus:
supplicanti parce, Deus.

13
Qui Mariam absolvisti,
et latronem exaudisti,
mihi quoque spem dedisti.

14
Preces meæ non sunt dignæ:
sed tu bonus fac benigne,
ne perenni cremer igne.

15
Inter oves locum præsta,
et ab hædis me sequestra,
statuens in parte dextra.

16
Confutatis maledictis,
flammis acribus addictis:
voca me cum benedictis.

17
Oro supplex et acclinis,
cor contritum quasi cinis:
gere curam mei finis.




Dia de ira, aquele dia, será tudo cinza fria: diz David, diz a Sibila.
Que temor será causado, quando o Juiz tiver chegado, para tudo examinar!
Correrão todos ao trono quando, em meio ao eterno sono, a trombeta ressoar.
Morte e mundo se espantam, criaturas se levantam e ao Juiz responderão.
Vai um livro ser trazido, no qual tudo está contido, onde o mundo está julgado.
Quando Cristo se sentar, o escondido vai brilhar, nada vai ficar impune.
Vós, ó Deus de majestade, vivo esplendor da Trindade, entre os eleitos nos contai.

Eu, tão pobre, que farei? Que patrono chamarei? Nem o justo está seguro.
Rei tremendo em majestade, que salvais só por piedade, me salvai, fonte de graça.
Recordai, ó bom Jesus, que por mim fostes à Cruz, nesse dia me guardai.
A buscar-me vos cansastes, pela cruz me resgatastes, tanta dor não seja vã.
Juiz justo no castigo, sede bom para comigo, perdoai-me nesse dia.
Pela culpa, se enrubesce o meu rosto; ouvi a prece e poupai-me justo Deus.
Vós, ó Deus de majestade, vivo esplendor da Trindade, entre os eleitos nos contai.

A Maria perdoando e ao ladrão na cruz, salvando, vós me destes esperança.
Meu pedido não é digno, mas, Senhor, vós sois benigno, não me queime o fogo eterno.
No rebanho dai-me abrigo, arrancai-me do inimigo, colocai-me à vossa destra.
Quando forem os malditos para o fogo eterno, aflitos, entre os vossos acolhei-me.
Dum espírito contrito escutai, Senhor, o grito: tomai conta do meu fim.
Lacrimoso aquele dia, quando em meio à cinza fria levantar-se o homem réu.
Libertai-o, Deus do Céu! Bom Pastor, Jesus piedoso, dai-lhe prêmio, paz, repouso.
Vós, ó Deus de majestade, vivo esplendor da Trindade, entre os eleitos nos contai.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ave Verum Corpus


Ave verum corpus natum de Maria Virgine

Vere passum, immolatum in cruce pro homine

Cuius latus perforatum unda fluxit et sanguine

Esto nobis praegustatum mortis in examine

O Iesu dulcis, o Iesu pie, o Iesu fili Mariae.

sábado, 6 de setembro de 2014

A Espiritualidade da Voz - Prof. Dra. Paula Molinari



Quando escrevi pela primeira vez sobre o assunto na publicação Técnica Vocal: Princípios para

o Cantor Litúrgico, foi pensando em comunicar-me com os cantores litúrgicos de maneira a

sublinhar que o canto artístico e o canto litúrgico diferem em essência. Assim, foi só o começo de

uma longa busca. As fontes são muitas, como também são muitas as “espiritualidades”, aqui entre

aspas, porque até mesmo o significado de espiritual já se configura uma miscelânea de

compreensões. Exatamente nesse fazer, iniciamos nosso texto atual, ou seja, aclarando os conceitos,

limpando preconceitos e buscando unidade de sentido. 



Espiritualidade fica aqui entendida à partir de sua origem spiritus e que significa respiração

quando relacionado a spirare e também significa a dimensão imaterial do ser humano, chamada de

alma. De maneira geral e simplificando, dizemos que quando a palavra leva no final dade, como

queremos falar de espiritualidade, tem aí uma ação envolvida, daí que espiritualidade é uma ação

ligada ao espiritual. Desenvolver a espiritualidade poderia então ser entendido como desenvolver

nossa capacidade de compreensão do espiritual, exercendo-a, pondo em ação essa dimensão

imaterial que também está ligada ao respirar, quando entendemos esse spirare como aquilo que

emana de nós através do material e traz consigo, nesse ciclo de manutenção da vida, contornos de

compreensão do imaterial. Agora, diante do exposto, podemos caminhar para a exposição daquilo

que pensamos sobre voz e que constitui a gênese de nossa proposição. 



Aqui sublinhamos que a voz é essa existência que emana unidade, que possibilita o discurso,

que vivifica o significado e, que no século XVI os primeiros teólogos da linguagem chamaram de

verbo. O verbo como essa proclamação, como essa emanação que dignifica a palavra, verbo como

aquilo que cria e como aquilo que dá vida. 



O verbo é então essa força vital, vapor do corpo, liquidez carnal e espiritual, no qual toda

atividade repousa, se espalha no mundo ao qual dá vida (Zumthor, 2010, p.66) e é essa atitude que

emanada em palavra constitui e materializa sentidos quando professa. 



E como falar do canto? Para Zumthor, (2010, p. 295) o canto exalta a esperança de que um dia

uma palavra dirá tudo. Ele afirma que, emblematicamente, o canto realiza esse ato de dizer tudo.

Santo Agostinho nos auxilia confessando sua constante predileção pelas melodias. Diz que, por

vezes, uma melodia lhe chama mais a atenção que o texto e Santo Agostinho então, sente-se

culpado por ceder aos prazeres do ouvido quando dá menos atenção à palavra que à música. Para

não tomarmos uma pequena frase sem compreendermos seu contexto, por exemplo, sigamos a

compreender como era a transmissão de conhecimento naquele tempo, como se dava o aprendizado

e quais as qualidades necessárias para um boa leitura. Para isso, ele mesmo, Santo Agostinho dirá: 



No Evangelho, Ele falou com voz humana, e a sua palavra repercutiu exteriormente

nos ouvidos dos homens a fim de que neles cressem, e o buscassem no íntimo, e o

encontrassem na verdade eterna, onde o bom e o único mestre ensina a todos os seus

discípulos. Aí, Senhor, ouço a tua voz a dizer-me que só nos fala verdadeiramente

aquele que nos ensina, enquanto aquele que não nos instrui, mesmo que nos fale, é

como se não nos falasse. (Livro XI - 10) 



Naquele tempo, havia uma distinção primordial sobre o como se falava, não do ponto de vista

da técnica apenas mas, de como a voz em sua função plena se fazia verbo para dar-se em canto e

prenunciar, mais do que pronunciar, a palavra. Esse anúncio chegava aos ouvidos e, à partir deles,

da escuta, como hoje falamos, poderia-se então, refletir, sentir, aprender e apreender. Não era a palavra escrita que ensinava e sim, a palavra proferida, no influxo vocal humano que fazia conexão

com o outro e com os outros, ao mesmo tempo que aquele que dava sua voz à isso, entregava-se

para o serviço. Assim, podemos acrescentar: numa ação sacrificial. Era a exposição da vida, em seu

sentido mais profundo, através da oralidade. 



Proferir é mais que dizer. Anunciar é mais que articular nossa materialidade do corpo para a

saída de uma voz que concatena sons que são ouvidos como palavra. Não é qualquer palavra que

deve ser entendida como Palavra. Quem garante essa passagem da palavra para a Palavra? Quem

profere, quem diz, quem canta, quem recita, quem salmodia, quem toca um instrumento e quem

escreve um texto. 



Espiritualidade da voz então, é essa equilibrada noção de decorrência, de pertencimento, de

conexão do material com o imaterial que a voz transcorre, presentifica ao ouvido humano e que só é

possível no transcurso do tempo, na vida em comunidade, numa partilha da vida cristã que emana

da voz aos ouvidos e, como na patrística, dos ouvidos para o coração. 




Com isso, o texto aqui apresentado é tão somente um primeiro subsídio para o trabalho em

comunidade. O assunto é profundo e nos convida a refletir para, a cada passo, guiar nossa

compreensão para uma ação efetiva. 



Nesse sentido, o final se dá com sugestões para estudo. 



O que estudar? O que observar durante o estudo?

Bílbia Sagrada - Livro: Gênesis - Capítulo 1 Como a voz aparece no texto? Qual a

relação entre voz e criação? Essa voz é interior

ou exterior? É proferida?

Bíblia Sagrada - Livro: Salmos Qual a função da voz descrita nos salmos?

Qual a importância do dizer? De quais vozes os

salmos falam?

Documentos da Igreja Constituição

Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada

Liturgia - Proêmio e Capítulo I - I. A Natureza

da Sagrada Liturgia e sua Importância na Vida

da Igreja

Como a voz, a escritura, o dizer e a maneira de

se comunicar vem assinalada nesse trecho?

Coleção Liturgia e Música. Livro:Técnica

Vocal: Princípios para Cantores Litúrgicos -

Capítulo: A Espiritualidade da Voz - autora

Paula Molinari

O que você entende por indízivel? Busque nos

evangelhos exemplos de recursos metafóricos

que envolvam palavra, verbo, anúncio, à partir

da explicação exposta no texto. 





Referências Consultadas:

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus. 2002.

BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. Paulus, 2010.

DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos sobre a Música Litúrgica. Volume 11. São Paulo: Paulus. 2005.

MOLINARI, Paula. Conhecer e Expressar o Indizível – O legado de Alfred Wolfsohn. Campo Limpo Paulista: FACCAMP, 2008.

__________, Paula. Técnica Vocal: Princípios para Cantores Litúrgicos. Coleção Liturgia e Música. São Paulo: Paulus, 2007.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à Poesia Oral. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

__________, Paul. A Letra e a Voz - A “literatura” medieval. São Paulo:Companhia das Letras, 2001.




fonte: CNBB

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Adoro te Devote - Santo Tomás de Aquino


Eu vos adoro devotamente, ó Divindade escondida,
Que verdadeiramente oculta-se sob estas aparências,
A Vós, meu coração submete-se todo por inteiro,
Porque, vos contemplando, tudo desfalece.

A vista, o tato, o gosto falham com relação a Vós
Mas, somente em vos ouvir em tudo creio.
Creio em tudo aquilo que disse o Filho de Deus,
Nada mais verdadeiro que esta Palavra de Verdade.

Na cruz, estava oculta somente a vossa Divindade,
Mas aqui, oculta-se também a vossa Humanidade.
Eu, contudo, crendo e professando ambas,
Peço aquilo que pediu o ladrão arrependido.

Não vejo, como Tomé, as vossas chagas
Entretanto, vos confesso meu Senhor e meu Deus
Faça que eu sempre creia mais em Vós,
Em vós esperar e vos amar.

Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo que dá vida aos homens,
Faça que minha alma viva de Vós,
E que à ela seja sempre doce este saber.

Senhor Jesus, bondoso pelicano,
Lava-me, eu que sou imundo, em teu sangue
Pois que uma única gota faz salvar
Todo o mundo e apagar todo pecado.

Ó Jesus, que velado agora vejo
Peço que se realize aquilo que tanto desejo
Que eu veja claramente vossa face revelada
Que eu seja feliz contemplando a vossa glória. Amem



Adóro te devóte, latens Déitas,
Quae sub his figúris vere látitas:
Tibi se cor meum totum súbiicit,
Quia te contémplans totum déficit.
Visus, tactus, gustus in te fállitur,
Sed audítu solo tuto créditur.
Credo, quidquid dixit Dei Fílus:
Nil hoc verbo Veritátis vérius.
In cruce latébat sola Déitas,
At hic latet simul et humánitas;
Ambo tamen credens atque cónfitens,
Peto quod petívit latro paénitens.
Plagas, sicut Thomas, non intúeor;
Deum tamen meum te confíteor.
Fac me tibi semper magis crédere,
In te spem habére, te dilígere.
O memoriále mortis Dómini!
Panis vivus, vitam praestans hómini!
Praesta meae menti de te vívere.
Et te illi semper dulce sápere.
Pie pelicane, Iesu Dómine,
Me immúndum munda tuo sánguine.
Cuius una stilla salvum fácere
Totum mundum quit ab omni scélere.
Iesu, quem velátum nunc aspício,
Oro fiat illud quod tam sítio;
Ut te reveláta cernens fácie,
Visu sim beátus tuae glóriae. Amen.